sábado, 30 de outubro de 2010

Evocação da Lua



 Má conselheira do rancoroso
Apreensão do doente
 Idealização do nostálgico
 Portinhola antiquada do inconsciente

 Sempre austera, soberba,presunçosa
  Resignada,não,orgulhosa em seu posto vigilante
   O dragão derrotado resplandeceu
   Em alguma íris negra e  delirante
  
  Além de tudo é política
   Para alguns democrática, pra outros perversa
   Eleva a dignidade do cético
   Do ingênuo a mantém no cárcere, submersa

Escassez

                                                           
  Não há nenhuma serventia em o condor observar os animais errantes.Ele voa, velozmente,veentemente, num vago véu azul descorado, perdido em seu eterno buscar.Passa por paisagens áridas, onde todo o vigor o tempo sugou .Avista tantos corpos desprotegidos pela vida, embalsamados pelo fel feroz, amargura atroz.Mas a ave não desce.A rapina é apenas um título que a carrega, um envoltório esculpido em camadas de prestígio.Quando vê sua  presa, dá início ao seu eloqüente protelar, seu canto de guerra.De que adiantam tantos condores encobertos por nuvens e nenhum pousado na terra? 

Sobradinho

Aquele sobrado de madeira...tão sombrio que clareou a mente dela.Subiu as escadas, rugidos velhos.Saudades de uma passado que nunca viveu, como se cada memória flutuante na atmosfera escura do quarto constituisse um quebra-cabeça brumoso,cuja ausência representava um enorme vácuo, que fazia com que engolisse seco e sentisse um aperto no peito.O odor de mofo dos livros projetava imagens em seu subconsciente, momentos coloridos,choques sinestésicos.
Saudades de uma passado que nunca viveu.Triste, por um presente que nunca fora o seu.

Anacronismo

Ardência de humilhação cortante
Vejo um negro no açoite
Os nervos contornando a saudade saliente
O samba fugindo ao longo da noite

Na roça, cumprimentei jeca tatu
Durante  uma entrada no Sertão
Pálido,desgraçado,farto...amarelão?
 É de  ter inchada e não ter chão

Perto de uma urninha Maria carregava
Na mão seca um nome ilegível
Quem deu foi o caro Seu amigo
Inteligente,cativante e sensível

Comprei um jornal pra manchar de café
Faltava um pedaço, parecia surreal
Tiveram de arrancar, já estava sujo
Mas sujeira é o que tinha na minha máquina digital

Capitães da Areia


Era lá na Bahia de açúcar,
De coronel, sertão de Lampião.
Bahia miscigenada de café, leite e canela. Terreiro do espírito brasileiro.
E aquela molecada...era tudo orixá.
Iemanjá, de quando em vez, sussurrava melodia nas ondas bravias
Que se quebravam como notas de agonia naquele quartel sofrido.
A capoeira não combatia desdém de sinhozinho não!
Talvez o golpeasse a ponto de tropicar, mas não de cair.
O sangue que manchava a praia não provinha só de navalhada.
Os zoinhos nem úmidos eram mais,
Porque seca não afeta só caatinga.
- E quando tu tá sorrindo rapaz, depois de furtar um chapéu
Ou melar esse beiço de seio moreno?
- Pois não conhece máscara, não, baiano? Onde tu tava no bumba meu boi?
- Cê quer roubar, nego? Cê quer matar?
- Não , sinhozinho, quero amar”!

Vó Zira


Cadeirinha da varanda, tão puída mas ainda agüentava  aquelas costas,
 curvadas perante o acaso.
Os olhos apáticos não liam realmente as páginas amareladas,
antigas pesquisas para o projeto da vida.
Palavras, faíscas que atiçavam seu universo onírico,
erotizavam sua inocência e cobriam seu consciente com uma capa negra,
 que viria  a se rasgar com a acidez amarga de uma lágrima cor de vinho.
A lágrima, porém, não trilhava mais sua palidez; desistiu.
O caminho era seco demais, decidiu descer pro rio, onde evaporaria  para o metafísico etéreo, eternizando o último vestígio
 da brandura de sua fantasia.