quarta-feira, 6 de julho de 2011

Epifania

Os livros lhe foram  manuais  de orientação de sua realidade idealizada,   pílulas capazes de diluir o vigor latejante de sua mente intempestiva, leitos de divagações constantemente a franzir  a serenidade de seus jovens  traços. Inconformidade era confortável, conveniente, facilmente direcionável. A porcaria da consciência nascente  não era acolhida  pelas redondezas óbvias. O alvo de seus pretenciosos julgamentos era pintado de escarlate. Os meios para atingi-lo estavam todos em suas mãos agitadas: metáforas, versos, citações, ideologias, álcool, sarcasmo, lirismo, paixão, ansiedade, espasmos, melodias, fantasia, inocência...nossa, foram tantos! Tinha uma verdadeira enciclopédia de conduta a sua disposição, que  transformava toda a reprovação  alheia em efervescência locomotiva .Era, na realidade, uma merda de ironia. Que patético e... que bonito !Algumas imbecilidades são necessárias. Não, são obrigatórias. Essenciais. É muito triste quando a ausência delas é notada após um longo período de tempo. Mas trágico mesmo é nunca senti-la. Enfim, longe disso se encontrava sua cabecinha, longe disso. Chegou o dia em que sua sagacidade de prontidão fora derrotada. Sua voz enfraqueceu, as maças do rosto empalideceram, os olhos deixaram de refletir os requintes de sua imaginação, ao perceber que o alvo descorara. Pior, percebeu  que a cor berrante fora fruto de sua  própria projeção mental . A  real fonte  do despertar de pertinácia enferma   fora aquela que acariciava maliciosamente suas têmporas durante toda  vida.

Nenhum comentário:

Postar um comentário