sábado, 30 de outubro de 2010

Anacronismo

Ardência de humilhação cortante
Vejo um negro no açoite
Os nervos contornando a saudade saliente
O samba fugindo ao longo da noite

Na roça, cumprimentei jeca tatu
Durante  uma entrada no Sertão
Pálido,desgraçado,farto...amarelão?
 É de  ter inchada e não ter chão

Perto de uma urninha Maria carregava
Na mão seca um nome ilegível
Quem deu foi o caro Seu amigo
Inteligente,cativante e sensível

Comprei um jornal pra manchar de café
Faltava um pedaço, parecia surreal
Tiveram de arrancar, já estava sujo
Mas sujeira é o que tinha na minha máquina digital

Capitães da Areia


Era lá na Bahia de açúcar,
De coronel, sertão de Lampião.
Bahia miscigenada de café, leite e canela. Terreiro do espírito brasileiro.
E aquela molecada...era tudo orixá.
Iemanjá, de quando em vez, sussurrava melodia nas ondas bravias
Que se quebravam como notas de agonia naquele quartel sofrido.
A capoeira não combatia desdém de sinhozinho não!
Talvez o golpeasse a ponto de tropicar, mas não de cair.
O sangue que manchava a praia não provinha só de navalhada.
Os zoinhos nem úmidos eram mais,
Porque seca não afeta só caatinga.
- E quando tu tá sorrindo rapaz, depois de furtar um chapéu
Ou melar esse beiço de seio moreno?
- Pois não conhece máscara, não, baiano? Onde tu tava no bumba meu boi?
- Cê quer roubar, nego? Cê quer matar?
- Não , sinhozinho, quero amar”!

Vó Zira


Cadeirinha da varanda, tão puída mas ainda agüentava  aquelas costas,
 curvadas perante o acaso.
Os olhos apáticos não liam realmente as páginas amareladas,
antigas pesquisas para o projeto da vida.
Palavras, faíscas que atiçavam seu universo onírico,
erotizavam sua inocência e cobriam seu consciente com uma capa negra,
 que viria  a se rasgar com a acidez amarga de uma lágrima cor de vinho.
A lágrima, porém, não trilhava mais sua palidez; desistiu.
O caminho era seco demais, decidiu descer pro rio, onde evaporaria  para o metafísico etéreo, eternizando o último vestígio
 da brandura de sua fantasia.