quarta-feira, 6 de julho de 2011

Labirinto

Desde o inicio do trajeto, Ariadne me mostrou um novelo de lã e dele arrancou solenemente um fio."Segue, pois é  tua imaginação".Cumpri à risca sua recomendação ou imposição,não é preciso.Nada é preciso.Reorganizei a trilha em função do lirismo profetizado.Colhi apenas os frutos da criatividade, atribui melodia à canção do breu, elaborei versos à poesia macabra que desfazia as pétalas sensíveis de uma rosa solitária, retribui um sorriso escancarado à ironia sádica do céu lúgubre.Galhos ragaram-me as roupas, mas remendei-as com folhas moldadas pelo outono.Minhas pernas só fraquejaram e me levaram ao chão ao descobrir que o labirinto encerrava no meu ponto de partida.

Epifania

Os livros lhe foram  manuais  de orientação de sua realidade idealizada,   pílulas capazes de diluir o vigor latejante de sua mente intempestiva, leitos de divagações constantemente a franzir  a serenidade de seus jovens  traços. Inconformidade era confortável, conveniente, facilmente direcionável. A porcaria da consciência nascente  não era acolhida  pelas redondezas óbvias. O alvo de seus pretenciosos julgamentos era pintado de escarlate. Os meios para atingi-lo estavam todos em suas mãos agitadas: metáforas, versos, citações, ideologias, álcool, sarcasmo, lirismo, paixão, ansiedade, espasmos, melodias, fantasia, inocência...nossa, foram tantos! Tinha uma verdadeira enciclopédia de conduta a sua disposição, que  transformava toda a reprovação  alheia em efervescência locomotiva .Era, na realidade, uma merda de ironia. Que patético e... que bonito !Algumas imbecilidades são necessárias. Não, são obrigatórias. Essenciais. É muito triste quando a ausência delas é notada após um longo período de tempo. Mas trágico mesmo é nunca senti-la. Enfim, longe disso se encontrava sua cabecinha, longe disso. Chegou o dia em que sua sagacidade de prontidão fora derrotada. Sua voz enfraqueceu, as maças do rosto empalideceram, os olhos deixaram de refletir os requintes de sua imaginação, ao perceber que o alvo descorara. Pior, percebeu  que a cor berrante fora fruto de sua  própria projeção mental . A  real fonte  do despertar de pertinácia enferma   fora aquela que acariciava maliciosamente suas têmporas durante toda  vida.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Homem do cubo

                                                                                                                                                          
Homem do cubo
Tudo perfeito
Direção uniforme
Tracejado aceito

Homem do cubo
Ideologia barata
De um “on the rocks” qualquer
Consciência abstrata

Inexato demais,
O círculo onírico
O choro mancha
Aquele quadro satírico



Homem do cubo
 Ar rarefeito
 Memória sem peito
Opinião sem conceito
Ideia sem leito
NADA perfeito

domingo, 14 de novembro de 2010

Pitangueira

Minha pequena, amiga lá do quintal, pitangueira..Exilada pelas flores no centro, rodeada do cheirinho barrento,tão gostoso de trazer umidade pro olho arregalado, surpresa criada pelo já acabado.Como se quanto mais velhas  as pitangas ficassem, mais maduras se tornavam. Ai é que chegavam os sabiás, cantando vantagem sobre todos do jardim, mas quando o céu, depois de tanto apanhar da lavoura ,arroxeava,curvavam as asinhas vaidosas para  o único monumento  capaz de propagá-los na inocência.Pitangueira, armazém mais famoso da cidade.Protegia todas as lembranças contra o tempo,ávido por desmanchá-las junto ao aroma da mandioca , constantemente  a escapar pelo murinho lá de trás.Não raro era  leito de gatos famintos.Não que lhes  escasseasse tigelinha de leite  ou sobras de sarjetas quentes ásperas, mas dignidade faz falta pro peito,assim como condescendência aos tímpanos.De vez em quando, minha pitangueira queria descanso,tardes em que os besouros combinavam com o vento um arranjo de zum zuns carregados por brisas ligeiras.A clave de Sol era a beleza de uma borboleta reprimida por sua leveza pesarosa.A sinfonia englobava a árvore em uma balançar sereno,digno de tirar o chapéu de couro mais caro que fosse. Uma vez, durante uma madrugada esquisitíssima , uma frutinha bichou, e o restante do laranja foi se despedindo gradativamente de todas suas irmãs. As reverências dos passarinhos sumiram, as lembranças se converteram em uma nova identidade, os gatos procuraram novos ombros...música??Nunca mais ouvi falar da melodia festeira.Tudo foi coberto por gélida cegueira.Mas serás sempre essencial pra mim, minha colorida pitangueira.

sábado, 30 de outubro de 2010

Evocação da Lua



 Má conselheira do rancoroso
Apreensão do doente
 Idealização do nostálgico
 Portinhola antiquada do inconsciente

 Sempre austera, soberba,presunçosa
  Resignada,não,orgulhosa em seu posto vigilante
   O dragão derrotado resplandeceu
   Em alguma íris negra e  delirante
  
  Além de tudo é política
   Para alguns democrática, pra outros perversa
   Eleva a dignidade do cético
   Do ingênuo a mantém no cárcere, submersa

Escassez

                                                           
  Não há nenhuma serventia em o condor observar os animais errantes.Ele voa, velozmente,veentemente, num vago véu azul descorado, perdido em seu eterno buscar.Passa por paisagens áridas, onde todo o vigor o tempo sugou .Avista tantos corpos desprotegidos pela vida, embalsamados pelo fel feroz, amargura atroz.Mas a ave não desce.A rapina é apenas um título que a carrega, um envoltório esculpido em camadas de prestígio.Quando vê sua  presa, dá início ao seu eloqüente protelar, seu canto de guerra.De que adiantam tantos condores encobertos por nuvens e nenhum pousado na terra? 

Sobradinho

Aquele sobrado de madeira...tão sombrio que clareou a mente dela.Subiu as escadas, rugidos velhos.Saudades de uma passado que nunca viveu, como se cada memória flutuante na atmosfera escura do quarto constituisse um quebra-cabeça brumoso,cuja ausência representava um enorme vácuo, que fazia com que engolisse seco e sentisse um aperto no peito.O odor de mofo dos livros projetava imagens em seu subconsciente, momentos coloridos,choques sinestésicos.
Saudades de uma passado que nunca viveu.Triste, por um presente que nunca fora o seu.

Anacronismo

Ardência de humilhação cortante
Vejo um negro no açoite
Os nervos contornando a saudade saliente
O samba fugindo ao longo da noite

Na roça, cumprimentei jeca tatu
Durante  uma entrada no Sertão
Pálido,desgraçado,farto...amarelão?
 É de  ter inchada e não ter chão

Perto de uma urninha Maria carregava
Na mão seca um nome ilegível
Quem deu foi o caro Seu amigo
Inteligente,cativante e sensível

Comprei um jornal pra manchar de café
Faltava um pedaço, parecia surreal
Tiveram de arrancar, já estava sujo
Mas sujeira é o que tinha na minha máquina digital

Capitães da Areia


Era lá na Bahia de açúcar,
De coronel, sertão de Lampião.
Bahia miscigenada de café, leite e canela. Terreiro do espírito brasileiro.
E aquela molecada...era tudo orixá.
Iemanjá, de quando em vez, sussurrava melodia nas ondas bravias
Que se quebravam como notas de agonia naquele quartel sofrido.
A capoeira não combatia desdém de sinhozinho não!
Talvez o golpeasse a ponto de tropicar, mas não de cair.
O sangue que manchava a praia não provinha só de navalhada.
Os zoinhos nem úmidos eram mais,
Porque seca não afeta só caatinga.
- E quando tu tá sorrindo rapaz, depois de furtar um chapéu
Ou melar esse beiço de seio moreno?
- Pois não conhece máscara, não, baiano? Onde tu tava no bumba meu boi?
- Cê quer roubar, nego? Cê quer matar?
- Não , sinhozinho, quero amar”!

Vó Zira


Cadeirinha da varanda, tão puída mas ainda agüentava  aquelas costas,
 curvadas perante o acaso.
Os olhos apáticos não liam realmente as páginas amareladas,
antigas pesquisas para o projeto da vida.
Palavras, faíscas que atiçavam seu universo onírico,
erotizavam sua inocência e cobriam seu consciente com uma capa negra,
 que viria  a se rasgar com a acidez amarga de uma lágrima cor de vinho.
A lágrima, porém, não trilhava mais sua palidez; desistiu.
O caminho era seco demais, decidiu descer pro rio, onde evaporaria  para o metafísico etéreo, eternizando o último vestígio
 da brandura de sua fantasia.